SEMINOMA UNILATERAL EM UM COELHO: RELATO DE CASO.

Blume, G.R.¹, Teixeira Neto, R.L.A.L.¹, Barbosa, C.H.G.¹, Neves, J.P.², Moraes, E.L.S.C.², Reis Júnior, J.L.¹, Sant’Ana, F.J.F¹.

Autor correspondente. Tel.: +55 61 31072829. Endereço de E-mail: gui_blume@hotmail.com (Blume, G.R.).

1. Laboratório de Patologia Veterinária da Universidade de Brasília (UnB); 2. Clínica Veterinária Mundo Silvestre.

PALAVRAS CHAVE: Neoplasia, Testículo, Lagomorfo.

INTRODUÇÃO: Neoplasmas testiculares são pouco descritas em coelhos e o tumor de células intersticiais é o mais frequentemente relatado [8, 9]. O seminoma é uma neoplasia derivada das células germinativas do epitélio seminífero [6]. Em geral, acomete cães, equinos e bovinos adultos e pode ser uni ou bilateral [2, 4, 7]. Histologicamente são subdivididos nas formas intratubular ou difuso, dependendo do grau e duração da lesão [2]. Este trabalho objetiva descrever os achados anatomopatológicos de um caso de seminoma em um coelho doméstico.

MATERIAL E MÉTODOS: Um coelho doméstico, macho, de 8 anos, apresentou histórico de aumento de volume no testículo esquerdo. Foi recomendada orquiectomia terapêutica e envio dos testículos para análise histopatológica. Os testículos com epidídimos foram coletados e fixados em formol 10%, processados rotineiramente e corados por HE.

RESULTADOS: Macroscopicamente o testículo e epidídimo esquerdos mediam 4,0 x 3,0 x 2,5 cm. O testículo era firme e, ao corte, era difusamente amarelado e irregular. Na microscopia, cerca de 90% do fragmento avaliado estava acometido por neoplasia oriunda das células da linhagem germinativa que expandia e substituía túbulos seminíferos e o interstício, destruindo a arquitetura normal do órgão. As células estavam arranjadas em mantos com estroma fibrovascular escasso. As células eram poliédricas a arredondadas, com bordos moderadamente distintos, citoplasma levemente eosinofílico e escasso. O núcleo era basofílico, ovalado e grande (cerca de 60 μm) com cromatina frouxa e um a três nucléolos evidentes. Havia anisocitose e anisocariose moderadas e 13 mitoses em dez campos de maior aumento (400X), com mitoses aberrantes e algumas células multinucleadas. Entremeando as células neoplásicas, havia quantidade moderada de material amorfo, eosinofílico, com restos celulares (necrose) e hemorragia. No outro testículo encaminhado, havia diminuição ou ausência moderada das células da linhagem espermática no lúmen tubular (degeneração) e aumento do tecido conjuntivo intersticial. Com base nos achados anatomopatológicos, firmou-se o diagnóstico de seminoma difuso unilateral.

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO: O seminoma ocorre com maior frequência em cães e touros velhos e é incomum em coelhos [1, 2] Em cães, o criptorquidismo predispõe neoplasias testiculares, incluindo o seminoma [4], porém, essa alteração congênita não foi observada no presente caso. Adicionalmente, criptorquidismo não ocorre frequentemente em coelhos [7]. Há descrições de invasão do seminoma para vasos sanguíneos do plexo pampiniforme e metástases para linfonodos regionais, entretanto essa neoplasia geralmente possui comportamento benigno [1, 3, 8]. Os achados macro e microscópicos observados no presente coelho são muito semelhantes aos de outras descrições [1 – 4, 6]. No presente relato, o seminoma era unilateral, porém há relatos dessa neoplasia acometendo os dois testículos [1, 8]. O diagnóstico diferencial de seminoma em coelhos inclui tumor de células intersticiais, teratoma e tumor de células granulares [4, 5, 8].

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

1. Anderson W.I. et al. Bilateral testicular seminoma in a New Zealand white rabbit (Oryctolagus cuniculus). Lab. Anim. Sci. 40:420–421, 1990.

2. Banco, B. et al. Metastasizing testicular seminoma in a pet rabbit. VET. Diagn. Invest. 24(3):608–611,2012.

3. Brown, P.J., Stafford, R.A. A testicular seminoma in a rabbit. J Comp Pathol 100:353–355, 1989.

4. Heatley, J.J., Smith A.N. Spontaneous neoplasms of lagomorphs. Vet. Clin. Exot. Anim. 7:561–577, 2004.

5. Irizarry-Rovira A.R. et al. Granular cell tumor in the testis of a rabbit: cytologic, histologic, immunohistochemical, and electron microscopic characterization. Vet. Pathol. 45:73–77, 2008.

6. MacLachlan, N.J., Kennedy, P.C. Tumors of the Genital Systems. In: Meuten, D.J. Tumors in Domenstic Animals. ed. Ames, IA: Iowa State University, 2002. p.547-573.

7. Nascimento, E.F., Santos, R.L. Patologia da reprodução dos animais domésticos. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011. 149p.

8. Roccabianca, P. et al. Simultaneous seminoma and interstitial cell tumour in a rabbit with a previous cutaneous basal cell tumour. J. Comp. Pathol. 121:95–99, 1999.

9. Veeramachaneni, D.N., Vandewoude, S. Interstitial cell tumour and germ cell tumour with carcinoma in situ in rabbit testes. Int. J. Androl. 22:97–101, 1999.

Utilização de Método Conservativo para Correção de Fratura Exposta de Tarsometatarso em Canário Belga (Serinus canarius domesticus).

Ayisa Rodrigues de Oliveira, Elber Luiz Silva Costa Moraes2, Nadia Proto Rodrigues Pereira3 1- Universidade de Brasília 
2- Mundo Silvestre – Brasília, 
3- PUC Minas – Unidade de Betim

RESUMO
O presente trabalho visou relatar os procedimentos clínicos conservativos empregados em um canário belga (Serinus canarius domesticus) com fratura completa e exposta de tarsometatarso. A imobilização de escolha foi uma tala elaborada com várias camadas de fitas de microporos em conjunto com membrana de alginato de cálcio no local da ferida para auxiliar na adequada cicatrização do local. A tala era trocada semanalmente, ao final de quatro semanas a lesão encontrava-se completamente cicatrizada e o animal já utilizava o membro para empoleirar, sendo retirada a tala. No fim do tratamento o exame radiográfico demonstrou consolidação total do foco de fratura com presença de um leve desvio ósseo, mas que não resultou em nenhum transtorno funcional para o membro. Um ano após o tratamento o animal retornou ao consultório para uma reavaliação, pôde-se então confirmar a eficácia do tratamento conservativo para corrigir uma fratura completa e exposta de um osso longo em passeriforme, sem submeter o animal ao risco anestésico na tentativa de uma correção cirúrgica, que seria uma técnica mais invasiva.

PALAVRAS-CHAVE
Fita de microporos, membrana de alginato de cálcio, passeriforme.

INTRODUÇÃO
Em aves lesões musculoesqueléticas são comuns, principalmente fraturas, anormalidades no desenvolvimento e lesões nos tecidos moles. Devido ao tecido subcutâneo pequeno ao longo das asas e pernas, frequentemente as fraturas resultam em lesões abertas e contaminadas. (1) Como a maioria das fraturas ocorre devido a um trauma, a prioridade deve ser estabilizar o paciente (cuidados especiais com choques neurogênico, hipovolêmico e septicêmico). (2) O tratamento não cirúrgico de uma fratura pode incluir repouso, talas e ataduras. (1) Vários tipos de talas foram elaboradas para fraturas simples de ossos longos em pequenas aves, sendo que na maioria das vezes recomenda-se imobilizar as articulações acima e abaixo do ponto de fratura. (2,3) Algumas bandagens vêm sendo utilizadas com sucesso em aves para potencializar a cicatri zação em fraturas expostas, tais como as membranas hidrocoloides e as de umidade permeáveis a vapor.(3) Na medicina humana a utilização de alginato de cálcio é recente, mas possui bons resultados. O alginato de cálcio em contato com o exsudato forma um gel fibroso rico em cálcio que interage com os íons de sódio da ferida absorvendo o excesso de exsudato e mantendo o meio úmido. Este age como quimiotáxico para macrófagos e fibroblastos, auxilia o debridamento autolítico, é biocompatível, biodegradável, hemostático e bacteriostático. (4) O canário belga é uma ave do grupo dos passeriformes que aparece com grande frequência na clínica de animais exóticos. É um animal de pequeno porte, pesando cerca de 30g e com expectativa de vida de 25 anos. (5) Estudos sobre esta espécie não só facilitam o manejo em clínicas particulares como também nos permite extrapolar para espécies nacionais do mesmo grupo cuja literatura demonstra-se demasiadamente escassa. O presente trabalho objetiva relatar a correção de uma fratura exposta de tarsometatarso utilizando métodos conservativos como tala de fita de microporos e membrana de alginato de cálcio.

MATERIAL E MÉTODOS
No dia 06 de julho de 2011 foi encaminhado à Clínica Mundo Silvestre em Brasília-DF um canário belga, macho, com 33g e que pertencia à proprietária há cerca de seis anos. Durante a consulta a proprietária relatou que o animal havia sofrido um trauma na noite anterior e teve o membro pélvico esquerdo fraturado. No exame físico do animal observou-se que havia uma fratura completa e exposta do tar- sometatarso esquerdo. Foi realizada limpeza da ferida com água oxigenada para retirar o excesso de sangue seco da região e com clorexidine degermante diluído a 0,5% e soro fisiológico. Como o animal ficou bastante estressado du- rante a contenção optou-se por realizar o exame radiográfico numa próxima consulta. Para imobilização do ponto de fratura foi realizada uma tala com cinco camadas de fitas de microporos abrangendo todo o tarsometatarso e metade do tibiotarso do animal. Envolvendo a ferida aberta pelo osso fraturado foi colocada uma camada de uma mem- brana de alginato de cálcio, objetivando potencializar a ci- catrização e reduzir a possibilidade de um foco de infecção.
Além da imobilização foi prescrito azitromicina (40 mg/kg), oral a cada 24 horas por sete dias e cetoprofeno (3 mg/kg), oral a cada 24 horas por três dias. Após dois dias o animal retornou ao consultório, foi então realizado exame radiográfico onde foi observada uma fratura proximal oblíqua completa do tarsometatarso esquerdo. Devido à lesão de continuidade estabelecida no foco de fratura e ao tipo de fratura encontrada no exame radiográfico foi alertada a proprietária sobre a possibilidade de gangrena e consequente amputação do membro. Na tentativa de manter o membro do animal foi dada continuidade a fixação externa com fitas de microporos e alginato de cálcio, além de antibioticoterapia sistêmica com enrofloxacino (dose), oral a cada 12 horas por mais sete dias começando logo após término do tratamento com a azitromicina. A cada sete dias o animal retornava para a imobilização ser refeita e a membrana de alginato de cálcio ser trocada. Após 16 dias a ferida já estava fechada e já podia ser observada a formação de um calo ósseo no foco de fratura, com um mês desde a primeira consulta outro exame radiográfico foi realizado, havia consolidação da região da fratura apesar do membro ter ficado com uma angulação um pouco diferente em relação à posição anatômica normal. A tala foi retirada e o animal empoleirou normalmente com ambos os membros, confir- mando o retorno funcional do membro pélvico esquerdo.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Muitas são as limitações de procedimentos ortopédicos cirúrgicos em aves de pequeno porte, como os passeriformes, tais como: os riscos anestésicos, a dificuldade de encontrar material adequado para o tamanho e peso do animal e o pós-operatório que exige manipulação frequente levando o animal a um estresse crônico. Portanto técnicas menos invasivas acabam sendo preferidas em detrimento a procedimentos cirúrgicos, a não ser que a última seja a alternativa de escolha para a ideal recuperação do animal. Apesar da imobilização externa não ser o método de escolha para fraturas completas de ossos longos, esta é bem aceita em casos de fraturas expostas, onde a contaminação local pode prejudicar o emprego de placas e pinos intra- medulares. O método escolhido neste caso visou à recuperação do membro e a cicatrização da ferida de forma mais asséptica possível. A tala com várias camadas de fita de microporos imobiliza adequadamente o foco de fratura sem prejudicar a postura do animal, sendo uma tala leve e fácil de trocar. Já o alginato de cálcio fixa-se na lesão exposta reduzindo a contaminação e potencializando a resposta imunológica no local. Optou-se por trocar a tala semanalmente para evitar que houvesse contaminação da região, sendo renovada a membrana de alginato de cálcio em todas as trocas. Aves possuem menor tempo para consolidação óssea quando comparadas aos mamíferos, sendo o tempo de imobilização para uma cicatrização completa cerca de 20 a 30 dias. Alguns estudos sugerem inclusive que os ossos medulares consolidam mais rápido que os ossos pneumáticos. (3) Ao chegar na clínica a ave apresentava uma fratura exposta e completa do tarsometatarso esquerdo, em 15 dias o canário do presente trabalho já estava com a ferida cicatrizada e com formação de um firme calo ósseo. Depois de mais 15 dias a tala foi retirada e o animal já empoleirava normalmente. O acompanhamento radiológico foi essencial para confirmar a consolidação óssea e avaliar o alinhamento do osso no final do tratamento.

CONCLUSÕES
O presente trabalho confirmou a eficácia de um tratamento conservativo para corrigir uma fratura completa e exposta de um osso longo em passeriforme, sem submeter o animal ao risco anestésico na tentativa de uma correção cirúrgica, que seria uma técnica mais invasiva.

REFERÊNCIAS
1. Rupley AE. Sinais Musculoesqueléticos. In: Manual de clínica aviária. Editora Roca; 1999. p. 213.
2. Harrison GJ, Lightfoot TL. Surgical resolution of orthopedic disorders. In: Clinical avian medicine Volume I. Spix Publishing; 2006. p. 761- 774.
3. Ritchie BW, Harrison GJ, Harrison LR. Trauma medicine. In: Avian medicine: principles and application. Wingers Publishing;1994. p. 417-433.
4. Mandelbaum SH, Di Santis EP, Mandelbaum MHS. Cicatrização: conceitos atuais e recursos auxiliares – Parte II. Educação Médica Continuada. An bras Dermatol set/out 2003; 78(5):525-542.
5. Johnson-Delaney CA. Passarines and softbills: canaries. In: Exotic Companion Medicine Handbook for veterinarians. Wingers Publishing; 1996. p. 6-9.